ORAÇÃO A MIM MESMO
Que eu me permita
olhar e escutar e sonhar mais.
Falar menos.
Chorar menos.
Ver nos olhos de quem me vê
a admiração que eles me têm
e não a inveja que prepotentemente penso que seja.
Escutar com meus ouvidos atentos
e minha boca estática,
as palavras que se fazem gestos
e os gestos que se fazem palavras.
Permitir sempre
escutar aquilo que eu não tenho
me permitido escutar.
Saber realizar
os sonhos que nascem em mim
e por mim
e comigo morrem por eu não os saber sonhos.
Então, que eu possa viver
os sonhos possíveis
e os impossíveis;
aqueles que morrem
e ressuscitam
a cada novo fruto,
a cada nova flor,
a cada novo calor,
a cada nova geada,
a cada novo dia.
Que eu possa sonhar o ar,
sonhar o mar,
sonhar o amar,
sonhar o amalgamar.
Que eu me permita o silêncio das formas,
dos movimentos,
do impossível,
da imensidão de toda profundeza.
Que eu possa substituir minhas palavras
pelo toque,
pelo sentir,
pelo compreender,
pelo segredo das coisas mais raras,
pela oração mental
(aquela que a alma cria e
que só ela, alma, ouve
e só ela, alma, responde).
Que eu saiba dimensionar o calor,
experimentar a forma,
vislumbrar as curvas,
desenhar as retas,
e aprender o sabor da exuberância
que se mostra
nas pequenas manifestações
da vida.
Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
que entra pelos meus olhos
fazendo-me parte suprema da natureza,
criando-me
e recriando-me a cada instante.
Que eu possa chorar menos de tristeza
e mais de contentamentos.
Que meu choro não seja em vão,
que em vão não sejam
minhas dúvidas.
Que eu saiba perder meus caminhos,
mas saiba recuperar meus destinos
com dignidade.
Que eu não tenha medo de nada,
principalmente de mim mesmo:
- Que eu não tenha medo de meus medos!
Que eu adormeça
toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
e desperte com o coração cheio de esperanças.
Que eu faça de mim um homem sereno
dentro de minha própria turbulência,
sábio dentro de meus limites
pequenos e inexatos,
humilde diante de minhas grandezas
tolas e ingênuas
(que eu me mostre o quanto são pequenas
minhas grandezas
e o quanto é valiosa a minha pequenez).
Que eu me permita ser mãe,
ser pai,
e, se for preciso,
ser órfão.
Permita-me eu ensinar o pouco que sei
e aprender o muito que não sei,
traduzir o que os mestres ensinaram
e compreender a alegria
com que os simples traduzem suas experiências;
respeitar incondicionalmente
o ser;
o ser por si só,
por mais nada que possa ter além de sua essência,
auxiliar a solidão de quem chegou,
render-me ao motivo de quem partiu
e aceitar a saudade de quem ficou.
Que eu possa amar
e ser amado.
Que eu possa amar mesmo sem ser amado,
fazer gentilezas quando recebo carinhos;
fazer carinhos mesmo quando não recebo
gentilezas.
Que
eu jamais fique só,
mesmo quando
eu me queira só.
Amém.
Oswaldo Antônio Begiato
POTE DE VIDRO
Tudo o que eu queria,
nas minhas infindáveis horas de desamparo,
era a companhia de um pote de vidro gordo e redondo
cheio de gomas coloridas e açucaradas,
e outro de bolinhas de gude,
coloridas e de todos os tamanhos.
Quando moleque, eu tinha só esses dois sonhos;
eles faziam meu abandono parecer dádiva.
- Por serem doces e coloridos, acho.
Por que será que nunca sonhei com mãos meigas,
com colo me aquecendo
e com histórias me fazendo adormecer?
Por que será que nunca sonhei com lápis apontado,
com uma borracha indestrutível
e com palavras me fazendo a dor me ser?
Por que será que até hoje
tenho só esses dois sonhos
- gomas e bolinhas de gude coloridas -
adormecidos nas prateleiras empoeiradas da paciência
em potes de dores que nunca consigo abrir?
- Por serem gordos e redondos, acho.
Oswaldo Antônio Begiato
RONDEL A MEU AMOR
Eu te amo com a alma cheia de esplendores
Nos cantos mais obscuros do infinito;
Eu te amo com a intensidade das dores
Que me deixam inconsequente e aflito.
E dos sonhos que tive de amores
Tu és a que vens cumprir o escrito,
Como o orvalho rouba frescor das flores
E a eternidade tudo que é finito.
Como não sei fazer um verso bonito,
Para aliviar teus doidos temores
Apenas repito o que tenho dito:
Eu te amo com a alma cheia de esplendores
Nos cantos mais obscuros do infinito.
Oswaldo Antônio Begiato
BARRO E SOPRO
As pessoas
intensas
imensas
e densas
são feitas
de barro,
de sopro...
De barro
para que as
sementes
germinem.
De sopro
para que as
sementes
se espalhem.
Tudo mais
é pedra,
é vácuo.
Oswaldo Antônio Begiato
IMPOSSÍVEL
Quero pra mim nesse amanhecer
A boca cheia d’aguardente,
Os olhos cheios de paisagens,
Os ouvidos cheios de bemóis,
E um sorriso que seja eterno.
Quero pra mim nesse entardecer
Uma melancia vermelhinha,
Um mar repleto de horizontes,
Uma pauta e uma clave de sol,
Nos dentes a brancura d’alma.
Quero pra mim nesse reencontro
O beijo ávido e imaculado,
A nudez santa e pecadora,
A melodia impertinente,
E uma alegria inescusável.
Quero pra mim, mesmo morrendo,
A tua mais preciosa presença.
Oswaldo Antônio Begiato
AMEIGADA
Para uma certa Fada Feliz
Tu és como devotada flor
Que se posta no parapeito da janela
Permitindo a entrada de olhares meigos
Suavizando as carrancas
Com o toque leve do sorriso.
Tu és como impulsiva flor
Que se posta na soleira da porta
Impedindo a entrada de dúvidas
Celebrando as muitas cheganças
Como se fossem certezas eternas.
Tu és como indeclinável flor
Que se abre toda pela manhã
Inaugurando o dia como fada
Cuja nudez feliz enche o sol
De sensuais ousadias.
Tu és como imaculada flor
Que se fecha toda ao entardecer
Banhando as entranhas da noite
Com o doce perfume
Que inebria as estrelas.
De ti, a mim,
Fiel servo de teus espinhos,
Bastaria a leveza única
De uma pequenina e delicada pétala,
Para aliviar a intensa dor
Desse meu fatal caminho.
Oswaldo Antônio Begiato
RESSURGIMENTO
Ganhei uma rosa
Leve como uma forma,
Breve como uma linha,
Fina como a esperança,
Bela como o mármore,
Donzela como aurora,
Champanhe como o arroubo.
Ganhei uma rosa
Feita de brisa lenta,
Assim, como um alívio;
Feita de folhas virgens
Assim como uma viagem.
Ganhei uma rosa
Feita de muitos versos,
Versos de despedida.
Ganhei uma rosa,
com ela seus espinhos.
Oswaldo Antônio Begiato
INACABADA
Foste tu que vieste me benzer
Com o rosto coberto por um véu
E o corpo negro e seminu?
Foste tu que tingiste a seco
Minha túnica de escarlate
E minhas sandálias de terra?
Foste tu que maculaste
Meus lençóis com orgasmos
E minhas pegadas com sangue?
Foste tu que negaste
Se refletir na lente de meu cristalino
E depois oraste sem me tocar?
Foste tu que cobriste
A noite com o manto da saudade
E o dia com os raios da espera?
Foste tu que prometeste
Amar-me por toda a vida
E depois morreste de repente?
Foste tu?
Foste tu que partiste sem me benzer?
Oswaldo Antônio Begiato
A ROSA DE NOSSO ETERNO AMOR
Naquele domingo à tarde,
em que todas as criaturas
se encantavam em calcular
a Unidade Astronômica
você me encantou com a idéia
de construirmos uma flor.
Você faria o projeto
da semente, da brotação...
A mim caberia fazer
a fórmula do perfume,
e o voto de eternidade.
E nós chama-la-íamos de
A Rosa de Nosso Eterno Amor.
Mas veio a segunda-feira
e com ela os homens frios,
com seus tratores pesados,
com suas mantas de asfalto,
nos enfeitaram com flores
construídas de plástico
e nos puseram no andor,
no andor cheio de passos,
cheio de passos alheios.
Oswaldo Antônio Begiato
CURVAS
Nas tuas montanhas insondáveis e vastas
(Nádegas, seios e malícias)
Vagam minhas entranhas fecundas e castas
(Ventre, umbigo e delícias),
Por isso supor-lhe-á o mundo desvios tantos
(Volúpias, coxas e desejos),
A encher-lhe de insuportáveis e belos prantos
(Saudades, perdões e beijos).
Em tuas tenras e leves pétalas rasgadas
(Esterco, broto e tesão),
Nas tuas raízes à flor da terra e mal regadas
(Chuva, tardes e verão),
Renasço, livre como o vento, em tuas pegadas
(Areia, estrada e destino)
E me entrego a ti virgem e feliz como chegadas
(Sorriso, bocas e menino).
Com as mãos cheias de chaves, me libertas
(Elos, cadeados e segredos)
E no teu colo proibido e repleto de ofertas
(Sono, abandono e medos),
Zonzo, pelos labirintos de tua mente sadia
(Poemas, livros e mais ninguém),
Repouso, sem prisões, minha insana travessia
(A loucura é o meu maior bem).
Oswaldo Antônio Begiato
HORAS
Vieste buscar as horas
Que, quando ainda jovem,
Deixaste abandonadas
No pêndulo do relógio?
Elas trincaram a pele
Do reboco que escondia
A fraqueza das paredes
E a insolência do passado
E descoloriram a retina
Das cortinas que protegiam
A sala das vidraças, do sol
E dos maus olhados.
Leve-as contigo.
Guarde-as.
Guarde-as como quem guarda
O pão caseiro,
No forno do fogão
Cobertas por um pano de prato
Para que testemunhem a saciação
De quem as quer consumidas.
Guarde-as como quem guarda
A aliança de noivado,
Na caixinha de música,
Para que denunciem a subtração
De quem as quer furtadas.
Guarde-as.
Porque elas te encheram a vida de tempo
E lhe farão experimentar o fim.
Oswaldo Antônio Begiato
BOM DIA
Cansado de meus invernos,
Quero hoje plantar
Com as mãos repletas de outono
E o coração de dádivas,
A semente de um pé de ipê,
De um pé de ipê amarelo.
Depois ungir-me-ei
Com o óleo santo
Que verte dos olhos de Maria
E me recolherei ermitão
Na varanda de minhas ilusões,
Esperando a primavera chegar.
E quando a primavera vier,
Com suas vestes adornadas
Pelos milagres da terra,
Abrirei um sorriso limpo
Sobre a nascença do verão.
Tudo então será sol.
Tudo então será flor.
Coisa linda de se ver!
Oswaldo Antônio Begiato
CHAMAS
Dentro desta tua alma rebelde
As coisas se desentendem meigamente.
Mentiras se tornam verdades
E aí me chamas de exagerado;
Verdades se tornam mentiras
E aí me chamas de incrédulo.
Sonhos se tornam realidade
E aí me chamas de herói;
Realidade se torna sonhos
E aí me chamas de caduco.
Impossíveis se tornam palpáveis
E aí me chamas de mago;
Possíveis se tornam derrotas
E aí me chamas de volúvel.
Solidão se torna presenças
E aí me chamas de enamorado;
Presenças se tornam despedidas
E aí me chamas de desertor.
Negações se tornam ofertas
E aí me chamas de pródigo;
Generosidades se tornam negação
E aí me chamas de avarento.
E quando delicadamente te tornas mulher
Me chamas... Apenas me chamas...
E me amantas. E me amas. Femininamente!
Oswaldo Antônio Begiato
CUMPLICIDADE
Acordei com vontade de te dar meu olhar.
Queria que o guardasses para mim
Naquela tua caixinha de porcelana
Que tens na cabeceira da cama
E onde todas as noites, antes de dormir,
Guardas delicadamente
Os sonhos que não queres ter.
Oswaldo Antônio Begiato
POEMA RICO
Gostaria que abundantes me fossem
as palavras.
Mas elas me fogem
se fazem magras,
raquíticas,
e parcas.
Me deixam mudo
diante desta mulher.
Gostaria que intensos me fossem
os diamantes.
Mas tenho apenas uns cristais
que se quebram quando meu olhar
os toca sem sentido.
Me deixam pobre
diante desta mulher.
Mas tenho dentro de mim um coração,
que mesmo mudo,
bate enlouquecido
e como uma ostra vaidosa,
cria com o seu bater doído
a pérola mais linda
que já se viu.
Me deixa como jóia rara
diante desta mulher.
Me deixa como poeta
diante desta mulher.
Oswaldo Antônio Begiato
CAPITULAÇÃO
Não sei se ainda tenho sonhos.
Perco-os na medida em que o amor
Dentro de mim se remexe entre as cinzas
E eu o cubro rapidamente.
Penso que com isso deixo meu coração blindado.
E blindando meu coração penso que não poderei mais amar.
Mas quando adormeço,
Supondo estar protegido
Pelo aço que guarda meu coração,
Ponho-me a sonhar... A sonhar!
Contigo, sempre... Sempre!
Oswaldo Antônio Begiato
SERENIDADE
As tormentas, que em alto-mar
Deixam meu barco à deriva,
Me fazem aumentar, a duras penas,
O alcance de minha vista
E a nitidez de meus horizontes;
A paciência de meus tímpanos
E a escassez de minhas palavras;
A delicadeza de minhas mãos
E a vastidão de meus gestos;
O cuidado com meus passos
E a anchura de meus caminhos;
As loucuras de meu coração
E a serenidade de meu juízo.
Sobretudo aumento nesse mar,
Nas estreitezas de meu navegar,
A mansidão de minha alma
E a percepção de mim mesmo.
Oswaldo Antônio Begiato
CARA CARÍSSIMA
Quando eu nasci
Disseram pra minha mãe
que eu tinha cara de joelho.
Quando adolescente
Diziam que eu tinha uma cara
Nas minhas espinhas.
Agora que envelheci
Dizem que precisam afastar minhas rugas
Para poderem enxergar minha cara.
Desconfio que nunca tive uma cara de verdade.
Oswaldo Antônio Begiato
O SILÊNCIO DE QUEM AMA
Hoje serás apenas
O quadro breve pendurado na cerca
Que guia a estrada.
Não te querem amante
E não te querem mãe
E não te querem filha.
Eles te querem apenas mulher
Mundanamente retratada no quadro.
No quadro breve.
No quadro roto e mal pintado
Que um dia descuidado de suas obrigações
O destino pendurou entre os arames farpados
Da cerca que guia a estrada.
Enquanto isso eu te amo... Breve e silenciosamente!
Oswaldo Antônio Begiato
VÉU
Tenho a esperança
de que,
antes d’eu morrer,
venhas
trazer-me o beijo
que negaste
quando
eras menina ainda;
quando
eras Filha de Maria.
Oswaldo Antônio begiato
ENDOSCOPIA
Tem aí no teu estômago
Uma úlcera
E ela está sangrando.
Mas não dói, doutor.
Sorte!
Não ?
O senhor acha?
Nem sempre a dor é ruim.
Oswaldo Antônio Begiato
OS OLHOS VIVOS DELA
Ela amava aquele homem
Intensamente.
Passou a vida inteira
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.
A vida inteira
Lavou sua roupa,
Alvejou,
Engomou,
Passou...
... e cuidou do vinco
e do vínculo.
A vida inteira
Preparou sua comida,
Escolheu,
Temperou,
Cozinhou...
...e conservou a louça
e os laços.
A vida inteira
Cortou suas unhas,
Limpou,
Lixou,
Beijou...
... e as recolheu nas entranhas,
às vezes estranhas.
A vida inteira
Amou aquele homem
Sem nada dizer a ele
Nem a ninguém.
Contudo,
manteve,
a vida inteira,
os olhos vivos
onde se podia ler
a mais bela
declaração de amor.
E quando ele morreu,
de velho,
Ela morreu em seguida,
de saudades.
Ainda tinha os olhos vivos.
Oswaldo Antônio Begiato
ABUNDÂNCIAS SINGELAS
Como algumas águas
Jorram abundantemente
E se fazem frescas e belas
Como manhãs de inverno;
Como algumas flores
Brotam abundantemente
E se fazem vivas e belas
Como concertos ao ar livre;
Assim também tu
Quando olhas com olhos semicerrados
E sorris com sorrisos semiselvagens
Te fazes abundantemente fresca e viva
Como a esperança de um mundo melhor;
Te fazes abundantemente bela
Como o colibri menino recebendo mel do bico da mãe.
Oswaldo Antônio Begiato
SEMEADORES DE DESVELOS
Há dias em que
o mundo cheira mal.
As notícias cheiram mal.
Os valores cheiram mal.
As atitudes cheiram mal.
Os homens cheiram mal.
Há dias em que
há no ar um forte cheiro
de desesperança.
Há no ar um forte cheiro
de indelicadezas.
Nesses dias
sinto uma saudade imensa
do pé de dama da noite
que minha mãe regava,
toda tardinha,
nos tempos de estiagem
e das mudas de lichia e jabuticaba,
produzindo,
com as quais meu pai
presenteava os amigos
que tinham quintal.
Havia no gesto delicado deles
uma indescritível esperança.
Uma esperança de perfume!
Oswaldo Antônio Begiato
LENDAS PERDIDAS
É a saudade áspera de mim mesmo
O buraco negro por onde me entranho
Nas profundezas de meu espírito revel
E reviro, aflito, minhas gavetas internas
À busca das lendas que faziam do mundo
Meu mundo azul e coberto de quimeras.
Não me lembro mais onde elas estão;
Eu, temeroso, as guardei bem guardadas
Quando era ingênuo escutador de estórias.
Oswaldo Antônio Begiato
ROSA E PROSA
À flor da pele
Trago muitas flores
E seus perfumes;
Trago muitas dores
E meus ciúmes.
À flor da pele
Te amo de mansinho.
És minha rosa,
Eu sou teu espinho:
- Poesia e prosa!
Oswaldo Antônio Begiato
AS ORTOGRAFIAS DO AMOR
Amoral, condutas e intenções impenitentes;
Amorfia, ausente de forma e de lógica;
Amorenado, com gotas de noites enluaradas;
Amorfina, anestésico proibido da lucidez;
Amorado, da cor instigante do pôr do sol;
Amoração, silêncio, elevação e mãos postas;
Amorigem, nascedouro de todos os sonhos;
Amorvalho, fecundante de rosas madrugadas;
Amorrediço, perversas desilusões irreparáveis;
Amormente, antes de qualquer pensamento;
Amorgasmo, êxtase impoluto;
Amorquídea, dádiva imponente;
Amortopnéia, intensidade imponderável.
Amortônimo, a verdade inconfessa e suas lendas.
Amortografia: e as palavras amalgamam-se no delírio!
Oswaldo Antônio Begiato
ENTES DIFERENTES
Fico feliz por saber-te feliz.
Cada qual com sua beleza.
Alguns a trazem na testa,
outros nos orifícios externos,
outros nos inversos indomáveis...
Há os que a revelam
no senso de escolher veredas,
no modo de pronunciar novidades,
na firmeza ao transpor trincheiras...
E há raros entes, entre mim e ti,
que a produzem na alma,
e conseguem caminhar há dois palmos do chão.
Por isso quando abraço,
abraço longamente:
- Assim posso sentir o peso do corpo
de quem é belo na alma:
- Essências! Incensos!
Quem tem beleza na alma
tem o corpo leve:
- Beija-Flor! Levitação!
Esses conseguem nos deixar enternecidos.
Esses conseguem nos infundir contentamentos.
E se for ilusão de ótica?
- Não é bom viver de ilusões?
Oswaldo Antônio Begiato
SEMPRE TE AMO TANTO
Te amo
sempre, sempre...
que o nunca que me agonia
parece ser
sempre, sempre...
O mesmo sempre
que te amo.
Te amo
tanto, tanto...
que o pouco que me compõe
parece ser
tanto, tanto...
O mesmo tanto
que te amo.
Oswaldo Antônio Begiato
O POETA EM SI
Enquanto vela
Me velas.
Enquanto chama
Me chamas.
Defunto obtuso de mim mesmo,
Lacro minha boca cheia de perguntas
Com um silêncio quase eterno.
Há, contudo, um vulcão dentro de mim
Que se torna eruptivo quando tua boca
Toca levianamente este meu silêncio.
E teus beijos impregnados de fogo,
Sob as luzes da vela quase impassível
Vindas da chama quase efêmera,
Ressuscitam os versos que não posso enterrar.
Oswaldo Antônio Begiato
ÁGUA FURTADA
Sempre pensei que água furtada
Fosse a crueldade que faziam com a sede.
Depois de velho é que fui descobrir
Que, por falta de castelos com torres,
Água furtada é onde sempre
Esteve escondido o meu amor.
Crueldade que fizeram com minha sede.
Oswaldo Antônio Begiato
SEREIA
Canta-me!
Se me cantares
prometo,
com as mais ternas palavras
que eu puder recolher
no poço dos desejos,
jurar-te amor eterno.
Apenas canta-me,
porque encantado
já estou.
Oswaldo Antônio Begiato
RAINHA
Lembro o dia em que
minha mãe Regina,
(porque era Regina mesmo)
pediu ao padeiro
sacos de trigo vazios.
(Parecia trazer para casa esperanças
que lhe restaram dos tempos de menina)
Em seu tanquinho de cimento
(que lhe roía as unhas e o tempo)
lavou-os bem
e alvejou-os com água sanitária forte.
Com cloro e sabão lhes tirou as letras
azuis e em círculo
que diziam terem eles vindos
da Moinho Santista.
(Os sacos, imensamente brancos,
pareciam pedaços de sua alma santa)
Com linha barata e costuras retas
as mãos repletas de carinho,
as pernas cheias de varizes
e os olhos felizes,
coseu na velha Vigorelli,
máquina de costura preciosa,
camisas raras para todos nós,
seus onze filhos.
(Eram o presente de uma mãe sofrida,
que parecia brincar de ser feliz)
Para as meninas
fez camisas femininas.
Para os meninos
fez camisas masculinas.
Em cada camisa,
no lado esquerdo,
o lado do coração,
colocou um bolso
e dentro do bolso
colocou, em segredo,
o que sonhava
para cada um de nós.
(Enquanto rezava uma prece
que mais parecia uma súplica desesperada)
A mim coube ser sacerdote.
Mas por absoluta falta de vocação
e excesso de desregramentos
fui ser poeta. Poeta menor!
(Na verdade eu queria mesmo é ter me saído
à sua parecença).
Oswaldo Antônio Begiato
TEU SERVO
Do beijo primeiro que hoje me deste
depois de uma longa solidão,
quero guardar o espanto:
- O espanto grave,
com o qual minha boca se deixou perfumar.
Quero guardar o espanto absurdo
com o qual ele encarcerou minhas palavras.
Guardá-lo-ei fielmente
na imortalidade que agora me pertence.
Oswaldo Antônio Begiato
DIAMANTE
Mal sabes que quando, sem exigências
E com a alma cativa, entregas a mim
O corpo nu e cheio de oferecimentos
Transformo-me em diamante e multiplico as estrelas.
A noite se encanta toda.
- Sou dia! Pensa ela.
Oswaldo Antônio Begiato
IRRACIONAL
E tu, que de tão irracional,
Me veio amar assim tão bela,
Tão intensamente insensata,
Tão espantosamente desregrada.
Tão menina. Tão frágil. Tão volúvel.
Tão corajosa. Tão intrépida.
Dizes-me que eu estou sempre cheio de razão,
Mas dominado pelo medo.
É verdade. Razão e medo são irmãos
Gerados em uma superfecundação heteropaternal:
- Engano e Costume
Aproveitaram-se dos óvulos férteis da insanidade.
A razão enfeia as pessoas.
Quanto mais irracional, mais belas ficam.
Eu cheio de razões e medos fiquei tolo.
Eles me levaram a um enclausuramento de mim mesmo.
Fiquei feio. Fiquei torto.
Bonito é o irracional. Vou ser insensato.
É a insensatez que se engravida dos amores mais belos.
Por isso não chores.
Quero-te olhando, não te quero chorando.
Desejo que possas sempre estar com os olhos livres
Para poder olhar. Poder me olhar.
Olhos livres não se fazem com lágrimas.
Quero, a partir de agora, ser a tua paisagem mais irracional.
Oswaldo Antônio Begiato
AMOR INFINITO
Descobri, sentado em uma pedra na praia,
enquanto cúmplice o sol se punha,
que o horizonte foi concebido
para que céu e mar
pudessem se beijar na boca.
Oswaldo Antônio Begiato
EM TEUS SEIOS
Se me fosse dado ser uma travessura,
Queria ser o teu pingente
Para ficar brincando de esconde-esconde
Entre teus seios.
Se me fosse dado ser um fascínio,
Queria ser o sol à tardinha
Para ficar me pondo avermelhadamente
Atrás de seus seios.
Se me fosse dado ser uma suavidade,
Queria ser o perfume da pétala
Para ficar navegando, em teu banho,
De um seio a outro.
Se me fosse dado escolher um amor eterno,
Queria ser aquele que trazes contigo
Para ficar me acolhendo cegamente
No vão de teus seios.
Oswaldo Antônio Begiato
VÍCIO SUPREMO
Eu te amo.
Estou irremediavelmente apaixonado.
Eu te amo e não sei o que fazer com esse sentimento.
Tudo tão intrigante! Tudo tão sacrossanto! Tudo tão simples:
- Amar.
Sinto o Universo cabendo dentro da mais ingênua declaração de amor:
- Eu te amo! É ou não é um Universo?
Nem mais consigo comer. Pensar em ti me sustenta.
Estou sólido. Colunas gregas: Dórica, Jônica e Coríntia.
Nem mais consigo dormir. Sonho acordado.
Estou viajando. Sonhos muitos: lúcidos, místicos, canalhas...
Vivo embriagado de ti. Sou boêmio de ti e tu és meu vício supremo.
Enquanto me embriago com tuas formas límpidas
vou decifrando a fórmula de um novo perfume,
o perfume de tua insubstituível presença.
Juntos construímos, em meus novos limites,
vitrais, altares, paramentos, flores, sinos...
...enquanto isso te ofereço preces, dádivas, horas, eternidades...
O amor me torna frágil...
...e frágil me ponho a te amar mais ainda
porque, preciosa, tu te tornas minha mais precisa precisão.
Te amar é o Universo todo
contido na mais pequenina declaração de amor:
- Eu te amo! Nada mais se faz necessário sentir.
Há nisso um templo e um tempo que só nós dois podemos entender.
Oswaldo Antônio Begiato
MEU NOME
(Oswaldo Antônio Begiato)
A vogal “o” do meu nome me faz masculino.
Gosto de ser homem feito.
Ele começa com ela e com ela termina;
a tem bem em seu centro acentuada circunflexamente:
- É a cumeeira do telhado
porque o meu nome é minha morada.
Suas vogais masculinas são as janelas
por onde enxergo as paisagens externas:
- Elas moldam a alma que ainda não é minha,
iluminam as minhas avenidas internas
e fertilizam meus canteiros inacabados.
Meu nome me protege. Meu nome me expõe.
Meu nome me esconde. Meu nome me delata.
Dentro do meu nome guardo todas as sílabas
que penso me pertencerem, mas que não me pertencem.
Guardo um passado que herdei cheio de honras,
um futuro que tento legar inutilmente
e entre eles um presente cuja utilidade não sei ao certo.
Dentro de meu nome guardo todas as poesias:
- As que já escrevi e que não são poesias e as que jamais escreverei.
Meu nome é minha Caixa de Pandora.
Oswaldo Antônio Begiato
VILEZA
Venho,
profundamente indignado,
à porta de tua casa para chorar,
não o leite derramado
(este a natureza de algum modo absorverá)
mas a alma vilipendiada,
esta sim irrecuperável.
Oswaldo Antônio Begiato
ADULTÉRIO
Não te empresto nunca mais
Meus miseráveis versos,
Tu sempre os adulteras
Pondo a nu meus inversos.
Mas tu sabes bem, mulher,
Que são teus universos.
Oswaldo Antônio Begiato
INESPERADO
Se o teu coração
imenso e veloz
Puder perdoar meu coração
Pequenino e trôpego
Peço perdoar-me
não pelo medo que tive de sofrer
Mas pela ousadia que tive de te amar
Em todas tuas dimensões
Com todas minhas proporções.
Com minh’alma
em contentamentos
Cobri,
com meu norte e meu sul,
teus cantos todos
Porque foram tão singelas
e perenes
As esperanças que tatuaste
em minha solidão:
- O vaso vazio à espera de flores;
Flores repletas
bordadas dentro dos olhos.
- O livro leve à espera de poesias;
Poesias meigas
semeadas por entre lírios.
- A noite nobre à espera de estrelas;
Estrelas meninas
vestidas de cor de rosa.
- A taça tosca à espera do tinto vinho;
Vinho ardente
fermentado no céu da boca.
- A canção casta à espera da voz;
Voz metálica
apurada nas catedrais.
- O barco brando à espera da tormenta;
Tormenta sem calmaria para amar...
Para te amar!
E nossas bocas bobas
à espera do beijo
- Beijo longo perdido na brevidade da paixão -
É o filme sem cortes
à espera de um final feliz;
Final feliz escrito pelas mãos da própria Felicidade.
Oswaldo Antônio Begiato
INOCÊNCIA
Eu não queria mais chorar. Nunca mais!
Estou muito velho para chorar. Esgotei, com o tempo, minhas lágrimas.
Mas quando vejo estou chorando.
Choro, mesmo sem lágrimas, porque chorar é preciso.
Sou um produto inacabado. Incapaz de ser saudável.
Incapaz de ser inofensivo.
Vã foi minha vida!
Tão cheia de segredos,
de cadeados,
de senhas,
de mistérios,
de combinações,
de chaves...
Minha vida foi tão cheia de encruzilhadas e tão escassa de retas.
Será que o tempo foi muito e o amor foi pouco,
ou será que o arrependimento por tão pouco amor
fez as pessoas me mimarem tanto?
Será que tenho direito de sonhar?
Toda vez que sonhei apanhei:
- Ou porque tinha sonhado exageros
ou porque não sonhei os sonhos que queriam.
Duro mesmo é se olhar no espelho e ver
que a curva da vida está em declínio,
não no que diz respeito ao tempo,
mas no que diz respeito aos sonhos que não tenho mais.
No entanto, resta-me um pequeno sonho
que escondo sob meu travesseiro para que não seja roubado:
- Eu gostaria que todos os portões fossem abertos
e que ninguém tocasse em nada que é meu;
mas que se houvessem toques,
fossem eles uma espécie de mágica fraterna,
que fizesse tudo virar flor.
Ou beija flor.
Ou borboleta.
Ou inocência...
Oswaldo Antônio Begiato
Oswaldo Antônio Begiato - Ao meio dia de um domingo prenhe de sol e enamorado de outubro, rompi espontâneo como um botão de rosa fêmea, que nasce sem ser esperado.Nasci, sob o signo de escorpião, em 26 de outubro do ano de 1.953, na cidade de Mombuca, um pequeno encanto no canto interior do Estado de São Paulo. Menor que a cidade só eu mesmo.
Ainda pequeno vim para Jundiaí, também São Paulo, Terra da Uva, da qual experimentei o sabor do fruto e jamais a deixei.
Nela me fiz advogado sem banca, aposentado sem queixas e onde perambulo até hoje, buscando, perdidas nas sarjetas, as palavras que me usam para escrever poesias.
Eu sou livrinho. Não um livro pequeno, mas um pequenino menino: - Livre.
Outros links em que os amigos podem me ler:
Meu Blog Pessoal: http://.oabegiato-poesias.blogspot.com/
Recanto das Letras: http://recantodasletras.uol.com.br/autores/oabegiato
Minha Comunidade no Orkut: http://www.orkut.com.br/main#community.aspx?cmm=83397153





























































